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O Primeiro símbolo da fé e sua doação

Capela de Nossa Senhora do Ó, o primeiro símbolo da fé cristã de Cascavel.
Capela de Nossa Senhora do Ó – gravura de José dos Reis Carvalho, agosto de 1859

 

Nenhuma Data de sesmaria do Siará Grande foi assentada sem o signo da fé cristã. Os herdeiros do Sítio Cascavel, sargento-mor Manoel Rodrigues da Costa e sua mulher, Francisca Ferreira Pessoa, construíram uma capela, cujo início data de 9 de novembro de 1710.

Concluída a obra, adquiriram, em Portugal, as imagens de Nossa Senhora do Ó (de quem eram fervorosos devotos), de Santo Antônio e de Santa Luzia. A imagem de Nossa Senhora do Ó, com suas formas exuberantes, expressões dramáticas, múltiplos detalhes e contornos esvoaçantes, talhada em madeira por artesão anônimo, caracteriza o estilo barroco. Capela e imagem resplandeciam pela sua arquitetura e arte sacra, majestosa afirmação do estilo predominante naquela época.

Em Pernambuco, vivendo seu apogeu econômico, obras sacras semelhantes eram comuns nas igrejas, com imagens de santos católicos se espalhando por terras nordestinas, à medida que os colonos avançavam seus domínios. Visando, sobretudo, aumentar o número de fiéis, essa proliferação de imagens era incentivada pela Igreja Católica, com base em uma decisão do Concílio de Trento (1545-1563).

A construção da capela, no minúsculo povoado da colônia lusitana, no Siará Grande, foi de enorme significado para os primeiros habitantes das terras cascavelenses, sendo a pequena igreja o símbolo da fé.

Os donativos para sua edificação representavam ganho de indulgências, assim como a certeza de uma sepultura em lugar sagrado. E, pelo que se sabe, muitos dos administradores do patrimônio de Nossa Senhora do Ó foram realmente enterrados nas imediações do templo ou em seu interior.

Por escritura pública de 10 de agosto de 1717 (Ver Documentos), o sargento-mor Manoel Rodrigues da Costa e sua mulher, Francisca Ferreira Pessoa, doaram à capela, vinte e quatro vacas, uma faixa de terra no Sítio Cascavel e, ainda, a casa de morada do doador, no mesmo sítio, para patrimônio de Nossa Senhora do Ó.

A escritura de doação foi passada pelo tabelião da antiga Vila de São José de Ribamar do Aquiraz, José Lopes Teixeira. A rogo de dona Francisca, por ser analfabeta, assinou Antônio Pereira da Silveira, sendo testemunhas daquele ato o mesmo Pereira da Silveira e Domingos Pereira de Sousa. Os doadores, enquanto viveram, administraram a casa de orações e os bens doados, sendo sucedidos pelo comissário geral, Clemente de Azevedo, em 27 de maio de 1732.

O local onde está assentada a Cidade de Cascavel corresponde a uma parte das terras desse patrimônio que, até 1870, esteve sob controle hereditário e aforado da santa da devoção dos colonizadores, passando, posteriormente, a constituir-se renda fixa da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da freguesia.

O primeiro religioso capuchinho a missionar na região jaguaribana, frei Vidal de Frascarollo, da Penha-Recife, por volta de 1815, chegou a pregar no púlpito da capela de Nossa Senhora do Ó (Nossa Senhora da Expectação).

Suas profecias o imortalizaram nas lendas e folclore cearenses, não sendo raro ouvir-se do sertanejo os ditos proféticos do sábio missionário, gravados na memória do povo: “Haverão de ver muito rasto e pouco pasto”, prenúncios de seca e peste no gado; “quando virdes a roda grande passar por dentro da pequena, então os tempos estarão mudando”; “quando os homens quiserem saber mais do que Deus, Ele mudará os tempos”; “…e aparecerão cavalos sem cabeça, roncando pelas estradas… e pássaros estercando fogo e haverá destruição…”.

A hipótese levantada por alguns historiadores, da presença do missionário português, padre Antônio Vieira, fazendo catequese em Cascavel é mera especulação.

Aquele sacerdote, que nasceu em 1608 e faleceu em 1697, não poderia ter visitado a capela, erguida em 1710, pelos herdeiros de Domingos Paes Botão. Nem mesmo passado por terras cascavelenses, quando esteve em missão de catequese de tribos indígenas, na Ibiapaba, em 1660, procedente do Maranhão, para onde retornou depois de permanecer na região serrana, de março a junho.

Em 1º de setembro de 1853, na abertura dos trabalhos legislativos, o presidente da Província, Joaquim Vilela de Castro Tavares, apresentou um relatório com o balanço de suas atividades e do quadro administrativo.

Fez comentários referentes ao “culto público da Vila de Cascavel em ruínas”, na época sendo vigário o padre Domingos Carlos de Sabóia, que não teve o devido interesse para ter a capela em boas condições.

Capela de Nossa Senhora do Ó

Não se tem conhecimento da data de conclusão da construção da capela de Nossa Senhora do Ó, iniciada em 9 de novembro de 1710, pelo sargento-mor Manoel Rodrigues da Costa e sua mulher, Francisca Ferreira Pessoa.

Sabe-se, entretanto, que, em 10 de agosto de 1717, o casal, como devoto de Nossa Senhora do Ó, a esta doou a capela, parte de suas terras, vinte e quatro vacas e sua casa de morada no citado sítio, conforme escritura lavrada pelo tabelião público de Aquiraz, José Lopes Teixeira.

O doador, na qualidade de fundador e proprietário, reservou para si a administração, enquanto vivesse, da capela e dos bens doados, ficando determinado que, após sua morte, deveriam passar a seus herdeiros.

Sabe-se que, antes mesmo da morte do último administrador, João Liberato, a 14 de julho de 1938, o templo estava em ruínas. Seu primo, Mário Ribeiro, que o sucedeu, encarregou-se, apenas, de guardar as imagens, as duas coroas, o missal e demais relíquias ali contidas, as quais passou, posteriormente, às mãos do vigário, padre Antônio de Oliveira Nepomuceno (1906-1994), como doação à paróquia. Luiz de Carvalho Ribeiro, filho de Mário Ribeiro, ainda hoje residindo no Riacho Fundo, terra de seus ancestrais, seria o gestor do patrimônio da Virgem do Ó.

Todo histórico a respeito da capela de Nossa Senhora do Ó, de seu patrimônio e sua administração, contido no documento “Memória histórica de Cascavel”, de 1908, escrito pelo historiador Benedicto Augusto dos Santos, é por ele arrematado com as seguintes palavras:

“Consta-me que por se achar deteriorada, nenhum ofício religioso atualmente se celebra em dita capela. Se é assim, só resta ao seu digno administrador e aos devotos de Nossa Senhora do Ó o emprego de meios urgentes e necessários para que esse templo, de tão gratas e queridas memórias, seja convenientemente reparado, a fim de evitar que venha a ser profanado, em cumprimento do que dispõe o Livro III Tit. III cap. IX da Constituição Sinodal do Bispado do Ceará.”

“Apelando pois, para os sentimentos religiosos do Tenente-coronel João Liberato Ribeiro, seu digno administrador, e descendente direto do capitão-mor Jerônymo Dantas Ribeiro, assim como para o reconhecido zelo e dedicação do respeitável e ilustre Vigário da Freguesia, e finalmente para o patriotismo do bom e generoso povo cascavelense, confio que não teremos a lamentar o desaparecimento desse templo que, sendo um monumento histórico do Século XVIII, também representa uma preciosa relíquia do início da nossa querida e formosa Cidade do Cascavel, que sempre preocupa o meu pensamento e da qual ainda conservo as mais gratas e saudosas recordações.”

Conclusão: por volta de 1945, estando a capela completamente arruinada e com apenas duas paredes de pé, servindo de depósito de lixo, Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974) determinou sua demolição (contra a vontade do vigário, desejoso de reerguer a capela) e a retirada do material aproveitável para erigir, vizinho, um monumento recordando o primeiro templo sacro de Cascavel.

O padre Antônio ergueu uma coluna que, na campanha eleitoral de 1946, foi muito danificada por fogos de artifício, quase destruindo o nicho e a imagem ali contida, fato que foi levado ao conhecimento do arcebispo, quando ficou determinada a construção de um obelisco no exato local da capela. Durante as escavações, foram encontrados vestígios de ossadas e de objetos nela enterrados, conforme o costume da época.

O monumento, de oito metros de altura, foi erguido pelos mestres Felipe e Francisco Cândido. O povo desejava ter a imagem original de Nossa Senhora do Ó, esculpida em madeira – obra de arte do século XVIII vinda de Portugal – no topo da edificação, mas aceitou uma réplica de tamanho maior, de gesso e cimento, feita pelo escultor e arquiteto italiano de Turim, radicado em Fortaleza, Agostinho Balmes Odísio (1881-1948).

Em 20 de janeiro de 1947, Dom Raimundo de Castro e Silva (1905-1991), a convite do vigário, padre Antônio, fez a inauguração do monumento, no qual havia um pequeno nicho onde esteve guardada a imagem de Nossa Senhora do Ó, ou, mais corretamente, Nossa Senhora da Expectação.

Mário Ribeiro, transformado em guardião do acervo daquele templo, entregou ao vigário a imagem original, as duas coroas (uma de prata e outra de ouro) e um missal, doando tudo à paróquia.

O manto e os anjos da imagem, já danificados, foram retocados, indo o sino para o Museu Histórico de Fortaleza e a coroa de ouro, em péssimas condições, vendida pelo seminarista José de Arimatéa Diniz à loja Cancão, de Fortaleza, por cento e cinquenta mil cruzeiros, para financiar reparos na Igreja Matriz e a construção do monumento, cuja lápide contém dados históricos da capela demolida.

O missal, e outras pequenas relíquias que ali estiveram, foi para o Museu Episcopal de Fortaleza. Como recordação, resta, ainda, uma fotografia da capela, reprodução da pintura de 1859, do pintor carioca José dos Reis Carvalho, doada à paróquia por Filomena Goiana Falcão.

Esta foto tem servido para novas reproduções, resgatando um documento importante da nossa História. Posteriormente, o vigário padre Antônio doou o obelisco à municipalidade, na gestão do Dr. Mansueto, a fim de que pudesse receber todos os cuidados dos poderes públicos. O prefeito Juarez de Queiroz Ferreira (1902-1982) havia construído uma pracinha ao redor do monumento e o prefeito seguinte, Dr. Francisco Mansueto de Sousa (1924-2009), mandou instalar a iluminação.

Hino de Nossa Senhora do Ó

Coro:

Atende Senhora do Ó
Os brados dos filhos teus
de nossos grandes pecados
Pedimos perdão a Deus. (bis)

Solos:

Guardai a terra Senhora,
Da triste desolação.
Mãe da celeste esperança
Sede a nossa proteção. (bis)

Assim benigna clemente,
Ouvi os nossos clamores
Dia e noite padecemos
Rogai por nós pecadores. (bis)

Por Jesus, ó Mãe, salvai-nos
Vosso filho, nosso bem
Fazei que vossos louvores
Cantemos na glória, amém.

Este hino, musicado pelo padre José Mourão Pinheiro, da Arquidiocese de Fortaleza, e com versos metrificados pelo arcebispo Dom Antônio de Almeida Lustosa, foi gravado nos estúdios da Ceará Rádio Clube, de Fortaleza, com Beatriz Almeida Franco, ao piano, acompanhando um coral composto por José Almar Almeida Franco, Raimundo Felício, Maria José Paula de Oliveira, Creusa Galdino, Odilo Maia Moura, Creusa Barros e Ana Marcelo Antunes. [Fonte: Cascavel 326 anos]

Monumento de Nossa Senhora do Ó, 2023
Monumento de Nossa Senhora do Ó, 2023 – Foto: Kyko Barros